sábado, 27 de setembro de 2014

11º CAPÍTULO: HENRI WALLON - EMOÇÃO

Henri Wallon e o conceito de emoção

Estudo de Henri Wallon indica como saber o que afeta as crianças observando suas emoções

Fernanda Salla (novaescola@fvc.org.br)

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As emoções dos bebês não são intencionais nem racionais. São geralmente influenciadas  positiva ou negativamente por sensações internas e pelo ambiente em que vivem. Foto: Lily Franey/Gamma-Rapho via Getty Image. Pesquisa iconográfica Josiane Laurentino
PRIMEIRAS REAÇÕES As emoções dos bebês não são intencionais nem racionais. São geralmente influenciadas positiva ou negativamente por sensações internas e pelo ambiente em que vivem

O que quer dizer o choro de um bebê? E quando ele movimenta bruscamente braços e pernas: será que é fome? Sono? Alegria? Cólica? Os espasmos, risos, gritos e outros comportamentos do recém-nascido são demonstrações da sua emoção (leia o resumo do conceito na última página). É por meio dela que o bebê comunica algo que o afeta. Por ter como característica uma ativação orgânica (não controlada pela razão), a emoção altera a respiração, os batimentos cardíacos e até o tônus muscular, sendo a mais visível das expressões afetivas (que incluem o sentimento e a paixão, conforme mostra areportagem da série Teoria Passada a Limpo, publicada na edição de outubro de NOVA ESCOLA). Ao observar o corpo da criança, como ela reage às sensações internas e ao meio externo, é possível identificar o que a afeta e de que forma (se positiva ou negativamente) e usar essa evidência para aprimorar o processo de ensino e aprendizagem. 

Henri Wallon (1879-1962), responsável por investigar a emoção geneticamente, diz que ela é a primeira manifestação de necessidade afetiva do bebê e o elo dele com o meio, tanto biológico como social. Isto é, quando a pessoa nasce, ela é só emoção. "Essa descoberta é muito importante, senão vital, para os que trabalham com os pequenos, pois saber que eles não vão reagir de forma racional às coisas interfere na forma de lidar com as circunstâncias que os envolvem", diz Silvia Rodrigues, docente da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). 

Quando uma criança faz birra, por exemplo, e o adulto não entende que essa é uma reação normal, ele pode perder o controle da situação. Mas não adianta tentar argumentar racionalmente com a criança num momento de crise como esse, pois ela tende a não escutá-lo, visto que encontra-se em uma turbulência emocional. "Muitos pais e educadores atribuem uma intencionalidade às ações dos pequenos, como se eles quisessem chamar a atenção propositalmente. Mas não é isso o que ocorre. Essas manifestações emocionais fazem parte da construção do 'eu' da criança, que vai se delineando pouco a pouco", diz Leny Magalhães Mrech, livre-docente pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). 

A comunicação não é o único papel da emoção. "Wallon atribui a ela também a função de mobilizar o ambiente para suprir o prolongado período de dependência, característico da espécie humana", diz Heloysa Dantas, professora aposentada da Faculdade de Educação da USP e estudiosa da obra de Wallon há mais de 20 anos. A emoção é fonte de sobrevivência do bebê, pois ele depende dos outros e a utiliza para garantir suas necessidades mais básicas (leia o trecho de livro na próxima página). Com o choro, a criança manifesta a sensação de fome, por exemplo, e chama a atenção da mãe, que vai saciá-la. Mais tarde, esse gesto, que a princípio não tinha uma intencionalidade clara, ganha um sentido. Assim a criança vai modelando suas emoções e caminha para a diferenciação. É daí que nasce a razão. 

Depois de alguns meses, o bebê tem uma postura própria quando tem medo, quando está alegre ou com raiva. "Uma das leis do desenvolvimento é que ele vai do sincretismo para a diferenciação. Isso em todas as dimensões, inclusive na afetividade. No início, as emoções são desordenadas, confusas e depois vão ganhando sentidos próprios", afirma Laurinda Ramalho de Almeida, vice-coordenadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). 

Porém essa expressão afetiva não aparece somente na fase impulsivo-emocional dos pequenos (até mais ou menos 1 ano de idade). Continua durante todo o processo de desenvolvimento. No ambiente escolar, dependendo de como o professor, o meio e os colegas afetam a criança, seu aprendizado pode ser desenvolvido ou inibido, e a emoção transparecida por ela evidencia isso(leia a questão de concurso na última página). Um lugar repressor ou em que a violência aparece de forma corriqueira gera manifestações mais agressivas. "Uma criança que age de maneira hostil não está plenamente consciente dessa emoção. Ela reage ao meio", diz Leny. O medo, por exemplo, pode inibir a aprendizagem, pois a emoção impossibilita que o racional atue de forma efetiva.


Educadores podem evitar apatia 

Segundo a pesquisadora, uma emoção que pode aparecer muito nas escolas é a apatia, reflexo de um ambiente educacional desestimulante ou da falta de motivação por parte de educadores e pais. Para reverter esse quadro, a observação feita por professores e demais adultos é a chave para entender como o meio está afetando o desenvolvimento dos pequenos. "Um bom educador é aquele que observa seus alunos e a forma como eles agem e lidam com as coisas. O corpo do sujeito está sempre revelando as sensações de bem ou mal-estar", afirma Shirley Costa Ferrari, gerente de projetos da Área de Educação Formal do Instituto Ayrton Senna e doutora na teoria de Wallon. 

Uma característica importante dessa manifestação da afetividade é que ela é contagiosa. Alguém que esteja muito alegre acaba transmitindo o sentimento para as pessoas que estão ao seu redor. Da mesma forma, um professor que esteja nervoso pode passar isso a sua turma. "Por ser uma expressão física, ela mobiliza o corpo do outro também", conta Shirley. O educador, sabendo disso, pode tanto não se deixar contagiar pelas emoções dos alunos como atuar para reverter uma situação em que um sentimento ruim domine a sala. "O profissional que se ocupa da infância deve estar preparado para suportá-la e capacitado para se tranquilizar, em lugar de se deixar estressar", afirma Heloysa. O ambiente favorável envolve o controle de situações ameaçadoras, que podem atrapalhar ou travar as inteligências. Caso o educador instale uma sensação agradável, de acolhimento e receptividade, as crianças captam isso organicamente e reagem de uma maneira positiva.

Trecho de livro

"O lugar que ocupam as emoções no comportamento da criança, a influência que continuam a exercer sobre o do adulto, abertamente ou em surdina, não é, pois, um simples acidente, uma simples manifestação de desordem." 
Henri Wallon no livro As Origens do Caráter na Criança 

Comentário 
Para Wallon, a emoção tem um papel central na evolução da consciência de si. Ele a concebe como um "fenômeno psíquico e social, além de orgânico". Das sensações de bem-estar e mal-estar iniciais e que contagiam o outro de forma indiferenciada, evolui para o estabelecimento de padrões posturais apreendidos na cultura em que a pessoa está imersa, como medo, raiva, ciúme, alegria etc.. 

Consultoria Shirley Costa Ferrari



Questão de concurso

Conselho Federal de Psicologia, 2010.
Concurso para concessão de título de especialista em Psicopedagogia

O trecho a seguir revela as influências de um importante teórico para a aprendizagem: "A afetividade e a inteligência caminham juntas desde o primeiro ano de vida da criança. Esse período, denominado 'impulsivo emocional', é marcado pelas relações emocionais do bebê com o ambiente. A afetividade dá lugar ao desenvolvimento cognitivo quando a criança começa a construir a realidade por meio do que chamou de 'inteligência prática ou das situações'. É interessante que a escola considere os níveis do desenvolvimento cognitivo da criança e suas necessidades afetivas a fim de melhor orientar suas ações educativas". 
Assinale o teórico responsável por essas ideias. 
a) Freud. 
b) Piaget. 
c) Wallon.
d) Vygotsky. 
e) Winnicot.  

Resposta correta: C

Comentário 
O mais importante é compreender a relação entre afetividade e inteligência. Com base em sua perspectiva genética, o desenvolvimento humano alterna fases em que ora predomina a dimensão afetiva, ora a cognitiva. Por exemplo, ao intervir para a melhoria da leitura do aluno, o professor o afeta em sua condição emocional. Ele se sente acolhido e essa percepção facilita a aprendizagem. 

Consultoria Shirley Costa Ferrari

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