sexta-feira, 29 de agosto de 2014

LENDO E APRENDENDO

A importância e o desafio da contação de histórias no desenvolvimento infantil: O conto e o reconto
Rosa Costa

Resumo

A temática desenvolvida neste artigo demonstra a necessidade de resgatar o prazer de ler e interpretar por meio da contação de história. Procedimento metodológico, terapêutico e milenar, que complementa todo o processo de ensino-aprendizagem da criança, abrindo portas e janelas para o mundo do conhecimento, do encantamento e do prazer de ler, proporcionando possibilidades do conte outra vez, exercitando a interpretação e o reconto da literatura em transição.

Palavras-chave: Contação de história, encantamento, reconto e magia.

Pelos escritos de Platão, sabemos que as mulheres mais velhas contavam às suas crianças histórias simbólicas – mythoi. Desde então, os contos de fada estão vinculados à educação de crianças (Franz Marie – Louise, 1990, p.11).

A contação de história no desenvolvimento escolar e cognitivo favorece, aguça e ativa o conhecimento da criança por meio do imaginário, do criar e recriar, do conte outra vez. Faz a criança apropriar-se de um mundo mágico, com grandes possibilidades de viagem pelo mundo do encantamento, proporciona abertura de portas, permitindo um desenvolvimento linguístico a partir do enriquecimento do seu vocabulário, além de todo um contexto que envolve a reprodução da literatura ou contação de história vivenciada. A contação de história também traz a possibilidade de contextualizar o conteúdo escolar de uma forma interdisciplinar, lúdica e prazerosa, oportunizando um momento pedagógico por um processo de ensino-aprendizagem.

Para tal propósito, buscamos o professor, digo, educador, aquele que ama o que faz, acredita na Educação, na sua transformação e na construção do cidadão. Acredita que “dias melhores virão”. Ser contador de histórias é sonhar acordado, é viajar pelo mundo encantado e levar seus ouvintes ao mundo irreal, ao mundo do imaginário.

É de Rubem Alves, um grande contador de histórias, que trago esta contribuição:

Andando pelas ruas de uma cidade do interior paulista, encontrei uma clínica de psicopedagogia que anunciava sua especialidade em “distúrbios da aprendizagem”. Dei-me conta de já ter visto muitas clínicas com a mesma especialização, mas nenhuma que anunciasse “distúrbios de ensinagem”. Por acaso, serão só os alunos que sofrem de distúrbios? Somente eles têm dificuldades em aprender? E os professores? Nenhum sofre de “distúrbios de ensinagem”? Que preconceito nos leva a atribuir o problema sempre ao aluno? Que providências terapêuticas tomar quando o perturbado é o professor? Mas que psicólogo terá coragem para passar-lhe esse diagnóstico? É mais fácil culpar o aluno (Rubem Alves, Sociedade Palavra Viva).

O discurso do autor, Rubem Alves, nos remete a uma reflexão mais ampla das questões que envolvem o ensino-aprendizagem. Buscar culpados faz parte da prática de alguns docentes, mas não devia. Repensando essa prática, encontramos, na magia da contação de história, caminhos para uma aprendizagem sem dor, traumas ou autoritarismo.

“Distúrbios de ensinagem”, retomando Rubem Alves: O educador precisa sonhar e acreditar, rever sua prática pedagógica e seus “distúrbios de ensinagem”, usando o instrumento da contação de história como fonte de sabedoria, resgatando uma prática milenar, hoje estudada por pedagogos, psicanalistas, linguistas, entre outros, todos se aprofundando em suas especificidades e no compromisso educacional.

À medida que avançam os segmentos escolares, se reduzem os espaços e tempos do brincar, e as crianças vão deixando de ser crianças para ser alunos. A experiência do brincar cruza diferentes tempos (passado, presente e futuro) e lugares, sendo marcada ao mesmo tempo pela continuidade e pela mudança. A criança, pelo fato de se situar em um contexto histórico e social, ou seja, em um ambiente estruturado a partir de valores, significados, atividades e artefatos construídos e partilhados pelos sujeitos que ali vivem, incorpora a experiência social e cultural do brincar por meio das relações que estabelece com os outros — adultos e crianças. Mas essa experiência não é simplesmente reproduzida, e sim recriada a partir do que a criança traz de novo com o seu poder de imaginar, criar, reinventar e produzir cultura.

A criança desenvolve grandes possibilidades de mudança e de renovação da experiência humana, que nós, adultos, muitas vezes não somos capazes de perceber, pois, ao olharmos para ela, queremos ver a nossa própria infância espelhada ou o futuro adulto que se tornará. Reduzimos a criança a nós mesmos ou àquilo que pensamos, esperamos ou desejamos dela e para ela, vendo-a como um ser incompleto e imaturo e, ao mesmo tempo, esquecendo que também são seres pensantes.

Vygotsky (2008), falando sobre o desenvolvimento dos conceitos científicos na infância, afirma que:

No desenvolvimento da criança, a imitação e o aprendizado desempenham um papel importante. Trazem à tona as qualidades especificamente humanas da mente e levam a criança a novos níveis de desenvolvimento. Na aprendizagem da fala, assim como na aprendizagem das matérias escolares, a imitação é indispensável. O que a criança é capaz de fazer hoje em cooperação será capaz de fazer sozinha amanhã. Portanto, o único tipo de aprendizado é aquele que caminha à frente do desenvolvimento, servindo-lhe de guia; deve voltar-se não tanto para as funções já maduras, mas principalmente para as funções em amadurecimento... Mas devemos considerar também o limiar superior; o aprendizado deve ser orientado para o futuro e não para o passado (p.129 -130).

É no processo de contar e recontar histórias, interagindo com os outros, observando-os e participando das brincadeiras, que a criança vai se apropriando tanto dos processos básicos de amadurecimento como dos modos particulares de brincadeira, ou seja, das rotinas, regras e dos universos simbólicos que caracterizam e especificam os grupos sociais em que nos inserimos. Então, a leitura infantil deve ser inserida nesse contexto como mais uma brincadeira gratificante e produtiva, exercitando o poder da fala.

Quando as crianças brincam de ser “outros” (pai, mãe, médico, monstro, princesa, fada, bruxa, ladrão, bêbado, polícia, etc.), refletem sobre suas relações com esses outros e tomam consciência de si e do mundo, estabelecendo outras lógicas e fronteiras de significação da vida. O brincar envolve, portanto, complexos processos de articulação entre o já dado e o novo, entre a experiência, a memória e a imaginação, entre a realidade e a fantasia. As brincadeiras de imaginação e fantasia exigem que seus participantes compreendam que o que está se fazendo não é o que aparenta ser. Quando estão imitando um personagem, eles sabem que se trata de um personagem; por conta disso, podem experimentar, com segurança, a tensão e o medo e solucioná-los com o mesmo encantamento que os criou.

As observações levam-nos a perceber que a brincadeira requer o aprendizado de uma forma específica de comunicação, que estabelece e controla esse universo simbólico, espaço interativo em que novos significados estão sendo partilhados, vivenciados a partir do faz de conta nas teias que bordam o imaginário infantil.

Dito de outra forma, a apropriação dessa comunicação é condição para a construção das situações imaginadas (falas/diálogos dos personagens, narrativas das ações e dos acontecimentos), bem como para a organização e o controle das brincadeiras partilhadas pelas crianças. Sua apropriação de saberes se dá no próprio processo de brincar. É brincando que elas aprendem a brincar. O brincar é fundamental para o desenvolvimento infantil, o momento de cada um é único, é singular, precisa ser valorizado e estimulado a cada fase do seu desenvolvimento. É interagindo com o outro, observando-o e participando das brincadeiras que vão apropriando-se tanto dos processos básicos constitutivos do brincar como dos modos particulares de brincadeira, ou seja, das rotinas, regras e dos universos simbólicos que caracterizam e especificam os grupos sociais em que a criança está inserida.

Também sabemos que a afetividade é o caminho que devemos percorrer até chegar às crianças, apoiando e dando autonomia para criar e recriar na lógica do seu pensamento. Quantos Joãos e quantas Marias passam pelo educador querendo brincar de faz de conta, comer chocolate ou conhecer melhor a dona da casa, aquela velhinha, que também pode ser a vovozinha. “Príncipes e princesas todos querem ser, precisamos descobrir por quê. Até sabemos, mas, se falar, o encantamento pode acabar.”

Segundo a autora Marie-Louise Von Franz (1990, p. 9):

Contos de fada são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo. Consequentemente, o valor deles para a investigação científica do inconsciente é sobejamente superior a qualquer outro material [...] o conto de fada é, em si mesmo, a sua melhor explicação, isto é, o seu significado está contido na totalidade dos temas que ligam o fio da história.

Em uma contação de histórias, contos, fábulas ou lendas, sempre será a história a grande estrela do evento. Seus contadores, os coadjuvantes que se esmeram em contá-las. Não devemos fazer da contação de histórias um espetáculo onde a plateia confunde o seu real objetivo, devemos escolher uma determinada forma teatral, com glamour, sim. Contudo, o que deve brilhar é a história contada em versos ou prosa.

Como resgate do que já foi dito, o conto e reconto com princesas, príncipes, fadas, bruxas e até madrastas são fontes de imaginação coloridas e brilhantes no mundo mágico do faz de conta, do conte outra vez. Tudo em forma de arte e encantamento, dando continuidade ao mundo colorido que liga os fios dourados do imaginário a histórias bordadas pelo encantamento da arte de ser um eterno aprendiz.

Rosa Costa é educadora, mestranda, especialista em Recursos Humanos na Educação, pedagoga com formação em Dinâmica de Grupo, Psicodrama, Contação de Histórias e acessora pedagógica da Editora Construir.

Endereço eletrônico: rosacostaf@ig.com.br.

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